Diante da necessidade de regulamentação das plataformas de streaming no Brasil, a Embarca Filmes se posiciona a favor do conteúdo integral da carta-manifesto pela soberania do cinema nacional (leia abaixo).
Importante mencionar que a votação do Projeto de Lei está prevista para esta terça-feira, dia 04 de novembro, e por isso, um dia antes vários cineastas, produtores e artistas realizaram atos em defesa de uma legislação que fortaleça a produção audiovisual brasileira, conforme podemos ver aqui.
"Carta-Manifesto
Destruição
na Regulação do Streaming.
Assunto: Cineastas, artistas, roteiristas, produtores, distribuidores, exibidores e profissionais do audiovisual brasileiro repudiam o relatório do Dr. Luizinho
O
audiovisual brasileiro vive um momento de enorme apreensão após a divulgação do
relatório do deputado Dr. Luizinho (PP-RJ), que trata da regulação das
plataformas de streaming - assunto maior do presente e do futuro do audiovisual
brasileiro. O relatório substitutivo ao PL 8889/17, publicado em 27 de outubro
último, que apresenta uma série de equívocos técnicos e conceituais e traz
graves consequências para o futuro do nosso cinema, pode ser votado no início de 1novembro, sem a
devida escuta e pactuação – pior, sem considerar a opinião dos maiores
interessados no tema: o setor audiovisual independente brasileiro.
Nesta
semana, depois de muita insistência das entidades, o deputado ouviu as demandas
do setor e recebeu manifestação da Agência Nacional de Cinema(ANCINE) que
atesta que o relatório substitutivo traz em seu conteúdo proposições que
desestruturam a atividade audiovisual no país e minam a capacidade do Estado
brasileiro de proteger a indústria cinematográfica nacional dos interesses de
grandes corporações estrangeiras.
Após
um atraso de mais de 10 anos – em que as plataformas de streaming pintam e
bordam por aqui, sem cumprir regras vigentes em nosso território, e sem
contribuir com o desenvolvimento do ecossistema audiovisual brasileiro - e
ainda depois de árdua batalha do setor para construir uma proposta de regulação
justa e soberana sobre o mercado de streaming, é de gerar perplexidade que o
Congresso – a casa de todos os
brasileiros – possa dar à luz a um projeto anti-nacional que sabota as
possibilidades de existência de uma indústria cinematográfica saudável e
soberana no país.
Desde
o fim da Embrafilme, o audiovisual nacional não corria risco de tamanho
retrocesso e descontinuidade. O que está em jogo são milhares de empregos, a
propriedade intelectual sobre o que criamos e produzimos, a saúde do nosso
ecossistema econômico e simbólico e, o mais importante, o acesso dos
brasileiros à sua própria cultura.
O
relatório do Dr. Luizinho coloca o futuro da nossa produção audiovisual à mercê
das decisões e curadoria de empresas estrangeiras, esvaziando o papel da ANCINE
e do Estado brasileiro. É grave que as plataformas estrangeiras repatriem
bilhões de dólares lucrados no Brasil, contribuindo tão pouco para o
desenvolvimento de nossa indústria e que,
a partir do relatório do Dr. Luizinho, ganhem o poder de decidir
livremente, de acordo com seus interesses e usando nossos recursos públicos, e
decidindo sobre o que vamos produzir e assistir nas telas.
O
projeto de lei do Dr. Luizinho ignorou a Agência Nacional do Cinema e junto com
ela os potenciais de desenvolvimento da nossa indústria ao reduzir a alíquota
de Condecine de 6% para 4% e, o mais grave, transferindo 70% desses recursos
para livre uso e poder decisório das plataformas, deixando a nossa principal fonte de investimento, o Fundo
Setorial do Audiovisual - FSA, com
apenas 30% dos recursos apurados na regulação - uma afronta à soberania
nacional.
Se o
projeto de lei for aprovado em seus moldes atuais, o presidente Donald Trump
não precisará gastar energia para proteger os interesses das suas big techs,
porque nosso congresso já estará cumprindo vergonhosamente com essa missão.
O PL
relatado pelo Dr. Luizinho contraria todas as boas experiências internacionais
de regulação das plataformas de streaming, pois despreza a proteção à produção
independente brasileira, às obras brasileiras independentes, conceito já consagrado na MP
2228-1/2001, reforçado na Lei da TV Paga e consolidado no texto anterior
apresentado pela deputada Jandira Feghali.
De
forma disfarçada, a regulação proposta no projeto do Dr. Luizinho acaba por
naturalizar as inúmeras distorções que hoje desindustrializam nossa atividade,
enfraquecem a cultura brasileira, criando critérios absurdos dedicados a
atender exclusivamente aos interesses do capital estrangeiro.
É
preciso lembrar ao Congresso Nacional: os parlamentares foram eleitos sob nossa
Constituição, e devem defender a cultura nacional e o desenvolvimento da nossa
indústria sem jamais sucumbir a lobbies de empresas estrangeiras.
Deve-se
lembrar ao presidente Lula: a cultura o apoiou na eleição acreditando em uma
política audiovisual séria e efetiva. Hoje, três anos após sua eleição, nosso
setor passa por dificuldades.
Esperamos
que o governo Lula e o congresso nacional possam garantir mais do que festejar
o cinema nacional em tapetes vermelhos mundo afora privilegiando a construção
de uma indústria audiovisual verdadeiramente brasileira e soberana com visão
estratégica de Estado.
É
chegada a hora do governo federal e do congresso nacional provarem seu
compromisso com o desenvolvimento e fortalecimento de uma indústria audiovisual
verdadeiramente brasileira, rejeitando o parecer do Dr. Luizinho e reincorporando as premissas
propostas pelo setor:
- Mínimo de 6% de Condecine, sendo 12% o
correto, conforme moção do Conselho Superior de Cinema
- Cota de 20% de obras nacionais no catálogo das
plataformas,
- Proeminência adequada das obras brasileiras
disponíveis nos catálogos,
- Destinação prioritária e majoritária dos
recursos ao Fundo Setorial do Audiovisual,
- Abatimento de Condecine, via investimento
direto das plataformas, exclusivamente dedicado à produção independente brasileira.
Declaramos
que os conteúdos originais produzidos
pelas plataformas de streaming no país são muito bem-vindos desde que sejam
viabilizados com recursos privados - jamais com recursos públicos brasileiros.

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